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Usina de Arte, Entre Estética e Existência

Por Luan Vidal

No coração da Zona da Mata Sul de Pernambuco, entre diversas espécies de plantas nativas e caminhos de terras, a arte floresce com um museu nada convencional de arte contemporânea a céu aberto que se expandiu e se firmou como um potente catalisador de transformação social e cultural. Instalada em meio a uma Usina abandonada desde 1998, a Usina de Arte, localizada na vila de Santa Terezinha, em Pernambuco, ocupa mais de 35 hectares de terra onde, de 1929 até 1998, funcionou uma das maiores produtoras de álcool e açúcar do Brasil. Até que os proprietários Bruna e Ricardo Pessoa de Queiroz ressignificam todo o espaço, reflorestando a antiga usina com cultura e arte. Assim, ela se transformou em muito mais do que um museu: tornou-se uma instituição que reverbera o bem dentro da própria comunidade.

Anualmente, a Usina de Arte se torna palco de um dos eventos mais vibrantes do circuito artístico brasileiro: o “Arte na Usina”. Em sua programação, o festival reúne instalações inéditas, performances, oficinas, rodas de conversa, residências artísticas e apresentações musicais, fazendo pulsar o coração em arte e comunidade. O evento nasceu antes mesmo do lugar tomar sua forma “definitiva”

Obra “Jardim Frágil” de Carlos Garaicoa. (Créditos: Andréa Rêgo Barros/Divulgação)

A Usina de Arte é lar de mais de 40 obras permanentes ou de longa duração. Um dos destaques é a intervenção paisagística Diva, instalada na superfície de uma das elevações: com 33 metros de comprimento, 16 de largura e 6 de profundidade, a obra em formato de vulva serve como lembrete dos corpos e traumas sociais que um dia passaram pela operação da usina e que ainda existem ao redor do mundo. Obras como Diva escancaram o propósito inovador, transformador e político do projeto, provocando diálogos e questionamentos nos visitantes.
Grande parte dessas discussões só é possível graças à liberdade criativa concedida aos artistas que ali expressam seus pensamentos e angústias.

Obra “Diva” de Juliana Notari. (Foto: Reprodução/TV Globo)

De Alfredo Jaar a Carlos Garaicoa. De Saint Clair Cemin a Iole de Freitas. De Regina Silveira a Flávio Cerqueira. A lista de artistas que integram o acervo da Usina de Arte impressiona, assim como suas obras, que por si só já são potentes comentários sócio políticos mas que ganham outro contexto e uma nova roupagem em meio a natureza da Usina.
Outro destaque recente foi a inauguração da primeira obra pública da artista Marina Abramovic no Brasil: a escultura interativa intitulada Generator, que consiste em um grande mural com pedras de quartzo rosa estrategicamente posicionadas na cabeça, no coração e no estômago, inspiradas pelos estudos da artista sobre o poder de cura desses cristais.
“É muito importante entender que isso não é uma escultura, é um trabalho de arte interativo, algo que vocês têm que usar. Eu não gosto de olhar para esculturas, eu gosto que você tenha a experiência. Isso é muito importante. Eu lhes dou um trabalho artístico e vocês me dão seu tempo para experienciá-lo”, explicou a artista sérvia na inauguração da obra.

Obra “Generator” de Marina Abramovic. (Créditos: Andréa Rêgo Barros/Divulgação)

Entre outras obras de viés político, destacam-se Tinha que Acontecer, de Flávio Cerqueira, e Cabanos em Matas de Água Preta, de Liliane Dardot. A primeira é uma cabeça em grande dimensão, construída em bronze e suspensa sobre um lago. A proposta do artista é questionar a imagem dos bandeirantes homenageados em diversos espaços do Brasil, paralelamente à grande parte da população que carece de informação sobre o passado escravista e violento dessas figuras. Já a segunda é uma instalação composta por três lâminas de vidro com desenhos impressos em tinta cerâmica. Elas contam a história das pessoas que viveram no próprio município de Água Preta. Combinada à paisagem da mata e ao espaçamento entre as lâminas, a obra permite ao visitante diferentes visualizações, com os cabanos surgindo e desaparecendo na paisagem, propondo, assim, um novo olhar artístico e historicamente comprometido com os eventos que ainda reverberam na nossa contemporaneidade.

Para além da imersão cultural, o lugar reforça o ciclo econômico dentro da comunidade se tratando das hospedagens em suas visitações – sobre isso, Ricardo Pessôa de Queiroz e Bruna Pessôa de Queiroz explicam a CARTOLA: “As hospedagens ligadas à Usina de Arte são inteiramente operadas pela comunidade local e dividem-se em três modalidades: hospedagem domiciliar, pousadas e campings. Elas representam não apenas uma oferta de acomodação, mas uma atividade econômica fundamental para a região, gerando renda e fortalecendo o turismo comunitário.

Ricardo Pessôa de Queiroz e Bruna Pessôa de Queiroz, fundadores da Usina de Arte. (Créditos: Andréa Rêgo Barros/Divulgação)

O pernoite enriquece a experiência da visita à Usina de Arte. Além de participar das atividades culturais e contemplar o Parque Artístico-Botânico, os visitantes podem assistir ao pôr do sol no alto do parque ou na vizinha Serra de Pedra, realizar trilhas ecológicas, banhos de bica, visitar a casa de farinha e o antigo aqueduto, entre outras vivências. Assim, hospedar-se aqui é viver o território em sua plenitude — em contato direto com a natureza, a cultura e a hospitalidade da comunidade que mantém viva a história e o futuro da Mata Sul de Pernambuco.” Declaram.


A Usina de Arte é um desses lugares raros onde o tempo desacelera e a paisagem fala, um lugar que evidencia a possibilidade de regeneração, cura e transformação, ela nos mostra que reimaginar o passado é possível – sem esquecê-lo, é claro.

Exterior da obra “Jardim Fragil”. (Créditos: Andréa Rêgo Barros/Divulgação)
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