A partir de referências religiosas, ícones da música e humor, o artista potiguar amplia o conceito de cultura pop incorporando a memória afetiva em suas obras
Por: Luan Vidal
O sentimento de identificação coletiva causado pelo fenômeno da cultura pop é frequentemente observado em milhares de pessoas ao redor do mundo. Para além de produtos e imagens que atravessam gerações, a cultura pop também funciona como um espaço de reconhecimento: aquilo que parece uma lembrança individual pode, muitas vezes, carregar referências compartilhadas por uma comunidade inteira. Uma das pessoas que observou esse fenômeno e passou a incorporá-lo em seu trabalho foi o artista Aevi.
Potiguar e grande observador de detalhes minuciosos que atravessam sua memória, Aevi imprime em suas obras imagens que o marcaram de alguma forma e que possivelmente gerem o sentimento de lembrança em outras pessoas: “A gente cresce entendendo que o que é pop geralmente vem da cultura norte-americana, mas um dos meus intuitos com a minha produção atual é justamente enxergar nossas vivências e referências também como cultura pop. É ver algo em uma tela que você acha que é uma memória particular, mas que, na verdade, se conecta com outras centenas de pessoas”, diz Aevi.

Suas pinturas retratam momentos engraçados e icônicos do folclore queer, como o famoso frame de Gretchen em seu documentário cult Gretchen Filme Estrada — sim, aquele mesmo em que ela aparece atrás da cortina — inspiração para a obra “A CANTORA”. Em outro trabalho, Aevi reinterpreta um aviso encontrado no verso de uma carteira de cigarro, protagonizado, desta vez, por uma fotografia de Vera Fischer segurando uma taça de martini e um cigarro.
Em “Timbu na Cartola”, obra que integra a Galeria Cartola, Aevi aproxima o inesperado do teatral. Um timbu suspenso sobre uma cartola cria uma cena que mistura humor e estranhamento no reconhecimento de referências do imaginário popular, mas no seu imaginário, remodeladas, com bastante humor.

A religiosidade também ocupa um espaço importante em seu trabalho, atravessada pelo seu próprio background religioso. Em sua paisagem particular, a Virgem Maria pode se transformar em Lady Gaga usando o vestido de carne no VMA de 2010 ou em Madonna durante a era Confessions on a Dance Floor, de 2005. São referências, símbolos e reinterpretações que atravessam a cultura pop, a religiosidade, especialmente o catolicismo, e o universo queer, criando uma linguagem própria, irônica e carregada de memória.
Entre santos, divas pop, memórias coletivas e referências que parecem particulares, Aevi constrói uma produção que questiona o que entendemos como cultura pop e quem tem o direito de ocupar esse imaginário. Sobre suas inspirações, seu processo criativo e a maneira como essas referências ganham novos significados em seu trabalho, ele conversou conosco.
C: Como nasce uma obra sua? Você parte de uma imagem, de uma ideia ou de uma inquietação?
A: As ideias surgem nos momentos mais aleatórios possíveis, e eu já entendi que não posso deixá-las passar. Geralmente anoto esses insights em um grupo de anotações no WhatsApp para depois revisitá-los e trabalhar melhor cada ideia.
Tem ideias que demoram meses para amadurecer e virar algo que realmente seja executado, já outras são instantâneas e já nascem prontas. E há também aquelas que acabam sendo descartadas, mesmo que nunca totalmente.
Também tenho um caderninho para rascunhar o que surge de forma mais visual, mas, geralmente, esse “pré” acontece todo no digital: insight (Grupo do WhatsApp) / mapa mental (Miro) / testes de composição e cores (Photoshop). Como também sou designer, o conhecimento dessas ferramentas me permite testar muito antes de realmente colocar a mão na massa.
C: O que a cultura pop representa para você enquanto artista?
A: Se conecta muito com o que produzo, porque meu intuito sempre foi fazer com que minha arte seja contemplada e gere identificação com quem é daqui. A gente cresce entendendo que o que é pop geralmente vem da cultura norte-americana, mas um dos meus intuitos com a minha produção atual é justamente enxergar nossas vivências e referências também como cultura pop. É ver algo em uma tela que você acha que é uma memória particular, mas que, na verdade, se conecta com outras centenas de pessoas.
C: Como você lida com a possibilidade de diferentes interpretações quando mistura símbolos religiosos e elementos da cultura LGBTQIA?
A: Minha família é supercatólica. Cresci rodeado desses símbolos e sempre fiquei chocado com o quanto o cristianismo atravessa nossa vivência, mesmo que você não seja cristão. Então essa é uma temática que sempre aparece de forma muito natural nas minhas produções, mas nunca de maneira “crua”. Gosto de relacionar essa simbologia com diferentes situações e contextos justamente para não virar uma mera arte sacra e, ao mesmo tempo, trazer a ironia que marca a maioria das minhas obras.
Sobre a mistura de elementos da cultura LGBTQIAPN+, acredito que você esteja falando das imagens de santas com divas pop, né? A ideia é basicamente mostrar como também adoramos imagens quando endeusamos nossa diva. Compramos CDs, vinis, camisetas, fazemos textão no Twitter (rs). Nunca foi sobre blasfêmia ou desrespeito, e sim sobre provocar uma reflexão sobre comportamentos.
C: O que falta para que a cena artística potiguar ganhe mais projeção nacional?
A: Eu queria MUITO ter a resposta para essa pergunta (rs). Comecei a produzir há quase 3 anos, mas nesse tempo já tive trocas com artistas incríveis daqui. Também venho observando que cada vez mais espaços e eventos estão sendo criados para preencher essas lacunas. Ainda não estamos nem perto do ideal, mas sinto que estamos dando alguns passos, mesmo que curtos, para que esse reconhecimento aconteça.

C: Você gosta quando o público cria suas próprias narrativas sobre a obra?
A: Respeitar e dar vazão às minhas referências, sem filtro. Num contexto de redes sociais, é muito fácil se perder e começar a produzir pensando em público ou engajamento. Como profissional criativo, percebi que a produção artística é o único lugar onde consigo executar uma ideia do zero, sem nenhuma interferência externa. Então venho aprendendo a ser muito fiel ao que estou sentindo e ao que quero fazer.
E isso também se aplica à experimentação: testar novos materiais, técnicas e estilos. Gosto dessa ideia de estar sempre me encantando por algo novo enquanto estou produzindo.






