Texto: Luan Vidal
Colagem: Luise Fonseca
“A glorificação da heroína não é criativa, é destrutiva”, disse o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton em maio de 1997, durante uma conferência pública em que condenou imagens de moda que associavam o estilo de vida do chamado “Heroin Chic”, marcado por uma estética enferma e soturna. Esse momento representou um divisor de águas na moda, quando, pela primeira vez, temas como drogas, morte e doença ganharam destaque no cenário principal da indústria, ou como decretado pela pesquisadora americana Nancy Etcoff, a era da “beleza feia”. Essa brusca subversão de valores, em uma indústria antes dominada por um ideal glamouroso, não foi bem recebida por grande parte do público.
Os anos 1990 marcaram um período em que a moda passou a ironizar a si mesma. Após uma década caracterizada por ombreiras, cabelos volumosos, cores vibrantes e corpos saudáveis, uma herança que começou no final dos anos 1970, quando a felicidade passou a ser diretamente associada ao consumo, abriu-se espaço para a ascensão de uma contracultura anti-luxo. Essa chamada “Civilização da Felicidade” de Lipovetsky, em que o bem-estar interior havia se transformado em produto, entrou em declínio, a frustração da vida corporativa e a constante pressão para adquirir alguns bens que deveriam ser almejados acarretou uma decepção geral que foi o cenário perfeito para tudo que ia contra esse mindset ascender. Essas imagens chocam porque representam tudo de mais degradante para a sociedade, e ainda assim, como causou um impacto tão grande? A moda enquanto ferramenta política, ao expor um cenário social em um desfile ou editorial seria um gesto de crítica e posicionamento ou apenas a estetização do sofrimento e a adoração do simulacro do “estranho”? Em que momento essa linha tênue entre denúncia e glamourização se rompe?

