Texto – Luan Vidal / Colagem – Luise Fonseca
A moda, enquanto expressão artística, sempre rompeu barreiras, não apenas entre o biológico e o tecnológico, mas também entre o vivo e o inerte. Quando o corpo é sua principal ferramenta, o discurso ultrapassa a simples mediação física e passa a questionar a própria relação entre sujeito e matéria. Até que ponto ainda habitamos o corpo, e não o construímos continuamente?
Como propõe Merleau Ponty, o corpo não é apenas um objeto no mundo, mas o próprio meio pelo qual percebemos e existimos, o que torna qualquer extensão incorporada, como roupas, acessórios ou tecnologias, parte ativa dessa experiência sensível: nesse sentido, a ideia de ciborgue não se limita à ficção, mas se manifesta na moda, onde peças reconfiguram o corpo vivido, funcionando como próteses simbólicas que expandem nossa identidade e ao nos relacionar com o ambiente, dissolvem as fronteiras entre o natural e o artificial.
Por exemplo, durante a Revolução Industrial, a preocupação em torno da substituição da mão de obra humana era evidente, porém pouco mais de um século depois, a discussão se deslocou: já não se tratava apenas de substituição, mas de integração entre corpo e tecnologia. Assim, quando Nadja Auermann surge no desfile de alta costura da Mugler em 95, em um traje cibernético completamente feito em aço com apenas alguns recortes em texturas plastificadas, Thierry utiliza a figura do ciborgue como instrumento, tensionando os limites da identidade humana em sua intersecção com o tecnológico.

