Há quase três décadas provando que a música não precisa seguir fórmulas para fazer história, o festival chega à sua 28ª edição reafirmando sua identidade e mostrando por que é um dos maiores patrimônios culturais de Natal
por Bianca Andrade
Quem mora em Natal sabe: a cidade raramente entra na rota das grandes turnês nacionais. Os shows que enchem arenas no Sudeste costumam passar longe daqui e a gente aprende a driblar a distância, a esperar, a viajar quando dá… Por isso mesmo, ter um festival do tamanho do MADA (Música Alimento da Alma) na nossa porta, ano após ano, é um privilégio que a gente nem sempre percebe o quanto vale.
Chegar à 28ª edição já seria um feito para qualquer festival de música. No caso do MADA, o que mais impressiona é a forma como ele construiu e preservou a própria identidade nesse caminho. Pioneiro em muitos aspectos, se tornou uma das iniciativas culturais mais singulares do país, juntando artistas de estilos, gerações e territórios completamente diferentes numa programação que foge, de propósito, das fórmulas das rádios e dos hits passageiros do TikTok.

Estamos falando de uma postura corajosa de seu idealizador, Jomardo Jomas. Com um olho afiado para descobrir novos talentos, perceber movimentos culturais que estão nascendo e compreender até mesmo quais são as “figurinhas repetidas” que merecem voltar ao concorrido festival potiguar. O MADA sabe o que quer, conhece o público que construiu e, justamente por isso, não tem medo de arriscar.
Neste ano, essa identidade apareceu em um line-up que colocou Zeca Pagodinho, Emicida, Marina Sena, BaianaSystem, Gaby Amarantos, Tribo de Jah, Duquesa e Nanda Tsunami no mesmo evento, ao lado de artistas potiguares (no palco principal!) e de várias cenas independentes. Samba, rap, reggae, pop e música eletrônica dividiram o espaço e atraíram um público diverso, sem ninguém precisar inventar uma fórmula que agradasse a todo mundo, pois no MADA a diversidade é parte fundamental da proposta.
E é impossível falar dessa diversidade sem mencionar o Baile da Amada, “o palco caçula” do festival, que vem se consolidando como o epicentro das novidades. É ali que as experimentações e novas sonoridades ganham ainda mais força: promovendo o encontro de artistas independentes com a parcela mais jovem do público. Este ano o Baile provou que tem fôlego para crescer e merece ganhar ainda mais espaço nas próximas edições.
Muita gente comentou que esta foi uma das edições mais politizadas, seja pelas falas dos artistas durante os shows ou pelo vídeo-manifesto exibido na primeira noite. Mas, sinceramente, essa percepção soa como a de quem não vinha prestando muita atenção. O MADA sempre carregou esse jeito de questionar, de se posicionar e de abrir espaço para artistas independentes, engajados e atentos ao que acontece no país.

Não há espaço aqui para hit vazio, escolhido só pelo número de plays ou pelo potencial de viralizar. Existe uma curadoria que entende a relevância cultural de uma atração para além dos números e sabe que um festival desse porte tem responsabilidade sobre os discursos que amplifica, os artistas que apresenta e os espaços que ajuda a construir.
Eu sei bem disso, porque frequento o festival desde os tempos da Rua Chile, na Ribeira. Vi o MADA crescer, mudar de endereço e de tamanho, e posso atestar que sua essência ficou intacta. Há quase três décadas, ele aposta em novas vozes, valoriza expressões culturais que costumam ficar fora dos grandes circuitos comerciais e junta públicos que dificilmente se encontrariam em outro lugar. Foi assim que o evento construiu a própria identidade: privilegiando a música como ferramenta de expressão e transformação social.
Em sua 28ª edição, essa proposta levou, em dois dias de evento, cerca de 40 mil pessoas à Arena das Dunas. Quando penso nesse número, lembro dos primeiros anos, de como o festival cabia em uma rua e hoje ocupa uma arena inteira, sem ter perdido o frescor. Contrariando as tendências ditadas por algoritmos, o MADA continua fazendo o que sempre fez: reunir artistas que merecem ser ouvidos por terem algo a dizer. Quem foi à Rua Chile e quem chegou agora à Arena das Dunas está, no fundo, na mesma pista. E que ela siga aberta por muitas e muitas edições. Vida longa ao MADA!
