Com uma pesquisa que transita entre a abstração do exterior e interior, a artista cria imagens que tensionam as fronteiras entre o eu, o outro e o mundo.
Por: Luan Vidal
Acima de qualquer técnica ou referência, o sentimento interno de saber que se foi destinado a algo é talvez a coisa mais importante ao determinar o que você fará para o resto da sua vida, aquela voz interna que parece te acompanhar pela vida inteira e só cessa quando você finalmente se encontra. A trajetória de Caroline dos Santos é marcada por um processo de construção sensível, em que o desejo de criar encontrou, aos poucos, espaço para se tornar uma prática profissional. Embora a arte sempre estivesse presente desde a infância, foi apenas com o tempo e, especialmente, a partir das transformações vividas durante a pandemia, que esse caminho começou a ser trilhado de forma mais incisiva.
Em suas obras, as fronteiras se tornam permeáveis. O corpo e a paisagem já não ocupam mais espaços distantes, aproximando a imaginação da realidade. Rios podem se tornar sangue, raízes assumem a aparência de veias e a paisagem passa a integrar o corpo quase integralmente.
Essa organicidade aparece na maneira como a artista trabalha formas assimétricas que remetem a algo, mas que aparecem distorcidas. Seu trabalho carrega consigo um fator interessante de reimaginar o mundo, ao contrário de simplesmente retratá-lo, criando imagens poéticas que transitam entre o familiar e o onírico.

Em Constelação (2024), a figura humana ocupa um lugar central, enquanto Coração da Terra (2026) aprofunda sua pesquisa abstrata. Entre pedras, rios, veias e raízes, a artista constrói uma paisagem híbrida, em que corpo e mundo passam a existir como uma mesma matéria.
C: Quando você percebeu que a arte deixaria de ser apenas um interesse e se tornaria seu trabalho?
CS: Sempre me senti artista, desde criança. A arte sempre esteve presente na minha vida, mas durante muito tempo tive dificuldade em me autorizar a seguir esse caminho. Essa transformação aconteceu gradualmente, até que, durante a pandemia, o desejo de construir uma carreira artística se intensificou. Em 2021, participei da minha primeira exposição coletiva, um marco para minha inserção no campo das artes visuais e para a certeza do meu caminho.
C: Quais artistas, movimentos ou experiências mais influenciaram seu trabalho?
CS: Não me vinculo a um movimento específico. Minha pesquisa é construída de forma autodidata, experimental e intimista, a partir do fazer cotidiano e da busca por uma linguagem própria. Acompanho artistas locais, nacionais e internacionais, e Frida Kahlo foi uma inspiração importante no início da minha trajetória.
C: Existe um tema que atravessa toda a sua produção, mesmo quando as obras parecem muito diferentes entre si?
CS: Minhas obras partem da vontade de distorcer os limites entre o eu e o outro, o dentro e o fora, o real e o onírico. Também penso a paisagem para dentro do corpo, rompendo com a ideia de que ela existe apenas externamente. A organicidade das formas, as texturas e a intensidade das cores são elementos que atravessam minha produção.

C: Você propõe um diálogo interessante entre suas pinturas e figurino em seu perfil. Por que integrar esses aspectos dessa forma?
CS: Tenho pensado a imagem de forma ampliada, permeável e relacional. Entendo o figurino como um desdobramento da pintura: ele leva a obra para o corpo e, ao mesmo tempo, cria uma nova obra. Minha aproximação com a costura e a dança também ampliou minha compreensão do figurino e do corpo como linguagem.
C: O que as obras Coração da Terra e Constelação revelam sobre o momento da sua carreira em que foram produzidas?
CS: São obras que representam momentos distintos da minha trajetória. Constelação (2024) pertence a uma fase em que a figura humana ocupava um lugar central, explorando a gestualidade do corpo e suas relações. Já Coração da Terra (2026) aprofunda minha pesquisa abstrata sobre os limites entre corpo e paisagem, onde pedra e coração, rio e sangue, veias e raízes coexistem como parte de uma mesma matéria.
