Moda, arte e gastronomia se encontram na cozinha de Priscyla Jansen, onde memória afetiva e criatividade dão novos sentidos aos sabores brasileiros
Matéria Arthur Anjos | Fotografia Rodrigo Oliveira
Matéria publicada na revista impressa nº 12. Clique aqui para comprar.
Há quem diga que algumas pessoas têm borogodó. Outras conseguem fazer dele um endereço. No restaurante Borogodó, da chef Priscyla Jansen, o charme brasileiro ganha forma em pratos, tecidos, cores e memórias. Antes de conquistar o paladar, a experiência começa pelo olhar.

Para Priscyla, moda e gastronomia nunca ocuparam lugares distintos. Ambas compartilham a mesma matéria-prima: criatividade. Seu repertório visual atravessa o guarda-roupa e chega naturalmente à cozinha. Cores, texturas e contrastes aparecem tanto nas roupas quanto nos pratos, construindo a identidade autoral da casa.
Esse diálogo é alimentado por referências da arte, da moda e do artesanato brasileiro. Peças da estilista Carol Burgo já inspiraram paletas de cores e até receitas do restaurante. Objetos de artistas e artesãos nacionais também compõem o ambiente. Para a chef, tudo está conectado: o restaurante reflete sua forma de enxergar o mundo.
Essa mesma lógica conduz sua cozinha. Em vez de reproduzir receitas tradicionais, Priscyla parte das lembranças para criar algo novo. “A memória afetiva é o ponto de partida, nunca o ponto de chegada”, resume. O objetivo é preservar histórias e ingredientes brasileiros, reinterpretando sabores com técnicas contemporâneas.
A essência da casa também se revela na arquitetura, assinada por Jordana Sá e Débora Cavalheiro. Ex-votos, corações sagrados, mosaicos e referências ao artesanato popular transformam o espaço em uma celebração da brasilidade, do afeto e da cultura.

Se um prato resume essa filosofia, é o Risoto de Rapadura. Antes visto como uma combinação improvável, tornou-se um dos símbolos da casa e representa a confiança da chef em valorizar ingredientes brasileiros.
Depois de enfrentar desafios pessoais e profissionais, Priscyla vê no Borogodó muito mais do que um restaurante. A casa representa coragem, resiliência e a liberdade de criar sem abrir mão da própria identidade. Seu maior desejo é que cada visitante leve consigo mais do que uma boa refeição: uma emoção, uma lembrança ou a sensação de que gastronomia, assim como a moda, também pode vestir histórias.

