Entre memórias afetivas e a busca por equilíbrio, Alan Araújo transforma os saberes do Cariri cearense em uma coleção que propõe a moda como abrigo.
Por: Luan Vidal
A aceleração de um mundo conectado pode soar sobrecarregada para a maioria das pessoas, recorrendo a estados de procura por significados maiores e a integração em processos de cura. Essa reflexão chegou a Alan Araújo, fundador da 407 AA, e daí o questionamento: “o que usamos enquanto passamos por esses períodos?” Então, o designer procurou nas tradições do Cariri cearense, um caminho para construir sua narrativa de reconexão por meio do seu trabalho. “Tudo iniciou de um interesse em mergulhar e pesquisar mais acerca das benzedeiras (mezinheiras). Figuras símbolo de fé, cura e espiritualidade tão presentes em todo o Brasil, mas, em específico, no Cariri cearense, de onde venho. Temos a lembrança de crescer ouvindo: esse menino deve tá com vento caído, tá precisando levar pra benzer” Descreve Alan.

Esses símbolos de fé e cura como as benzedeiras representam um legado geracional e cultural para os habitantes da região e acabam por ser um caminho de volta tradicional para quem conviveu com essa cultura e procura um tipo de reconexão, no processo, Alan coleta aspectos da simbologia espiritual e incorpora nas roupas como inspiração e referência direta, transformando esses elementos cotidianos, em linguagem de moda “Temos a famosa imagem da senhorinha com sua “camiseta de santo”, o saco de feira comumente usado como bolsa, a renda branca na mesa do altar, a tecelagem artesanal encontrada tão usada em tapetes…” O estilista também deixa explícito que apesar de qualquer inspiração ou conceito por trás da coleção, as roupas foram feitas pensando sim na comercialização e e no conforto ao usá-las: “Ao mesmo mesmo tempo que mergulhamos tanto em signos culturais, a coleção tem uma vibe esportiva, confortável (…) Acredito e penso muito em roupas versáteis e confortáveis. Que funcionem como um abrigo no dia a dia e que sejam fáceis de usar.” O conforto aparece como um valor central da coleção, que entende a moda como uma forma de abrigo físico e emocional.

Intrínsecas nessas referências, alguns pontos da coleção carregam significados que ao olho nu possam passar despercebidos, como os drapeados, que fazem alusão às nascentes da Chapada do Araripe, enquanto o diálogo com o aspecto esportivo evidência o corpo no centro da mente e o bem estar dele.
Após o desfile, o objetivo é transformar a visibilidade conquistada em novas conexões. Mantendo o conforto e a versatilidade como pilares, a marca pretende continuar criando peças que acolhem diferentes corpos e acompanham as histórias de quem as veste. Afinal, assim como os processos de cura que inspiraram a coleção, a moda também pode ser uma forma de cuidado: “Queremos estar cada vez mais presentes na vida dos nossos clientes, compartilhando memórias, participando e construindo novas histórias. Sempre com muito conforto”.

