Interpretando o streetwear a sua própria realidade, o estilista incorpora suas memórias de diferentes formas nas suas coleções.
Por Luan Vidal
A ancestralidade da cultura negra sempre inspirou a moda para além da sua própria órbita. Os desdobramentos que a herança afro-diaspórica pode ter para quem trabalha com criatividade são muitos e podem vir de vários lugares: da família, das próprias experiências ou de histórias estudadas ao longo da vida.
Essas marcas são evidentes no trabalho de Bruno Olly. Para o estilista piauiense radicado no Ceará, esse background é inerente ao desenvolvimento de suas coleções, e, de certa forma, tudo acaba voltando para a ancestralidade.
Dando continuidade a um legado familiar, o estilista costura em suas coleções a história que atravessou sua família e os valores que recebeu dessas figuras. Para ele, transformar essa memória em marca foi um gesto de reverência: “Decidir transformar a memória da minha avó e da minha mãe em uma marca de moda foi o meu jeito de honrar o sacrifício e o legado delas. Herdei delas uma resiliência inabalável, a busca incessante pela perfeição e a curiosidade por sempre aprender algo novo. A costura, para mim, é mais do que um ofício; é uma fonte de gratidão e respeito por tudo que fizeram para sustentar a família com dignidade”.
Nessa mistura de referências familiares e globais, Bruno conceitualiza suas coleções, e o processo começa sempre pela narrativa, e não pelo mercado: “Na Bruno Olly Studio, ela nasce invariavelmente de uma história ou de uma inquietação pessoal. O mercado dita ritmos, mas a história dita a alma. Eu começo pela narrativa, uma vivência, uma memória, um manifesto de identidade preta e LGBT. A partir dessa história, eu busco as texturas, as formas da alfaiataria e a funcionalidade utilitária que vão traduzir essa ideia em roupa”.

Na última coleção, intitulada “REDOMOBOY”, apresentada no Metrópoles Catwalk, ele se inspira na lenda do Saci Pererê, ser do folclore brasileiro conhecido por suas travessuras. Sob a ótica do estilista, o personagem toma a forma de gorros e balaclavas vermelhas, símbolos reconhecíveis do streetwear global, eixo principal de atuação da marca. Antes dela, um marco foi a coleção “Não Existe Paraíso”, de 2022, que carrega de forma especial o legado familiar: “Ela não só foi o momento de inserir as técnicas de alfaiataria pela primeira vez na marca, mas também marcou meu retorno aos eventos pós-pandemia, unindo a perfeição do corte à emoção de um recomeço”. Entre os elementos que definem a identidade da marca, o oversized ocupa lugar central: “Além da fusão de alfaiataria e utilitarismo, a modelagem oversized é o nosso principal ícone de referência. Nós a exploramos para trazer volume, movimento e uma estética urbana e agênero, que define a alma da Bruno Olly Studio”.

Entretanto, o estilo das ruas, apesar de semelhante em alguns aspectos, como a moda de cada lugar do mundo, varia conforme as condições de onde está inserido, seja pelo clima, pelo contexto social ou pela população. Quando falamos do streetwear no Nordeste, ele também atravessa particularidades e características próprias: afinal, a rua de São Paulo não é igual à rua de Fortaleza, por exemplo. Bruno não tem dúvida sobre isso: “Tem muita diferença, principalmente na matéria e na alma. O streetwear de São Paulo muitas vezes nasce do concreto, da urgência fria e do clima temperado, o que pede outras camadas. O streetwear cearense nasce sob um sol forte, em um território de profunda riqueza têxtil e artesanal. O nosso streetwear tem peso conceitual, mas precisa de respirabilidade, movimento e texturas. A gente não copia a rua de fora; a gente veste a nossa rua, o nosso clima e a nossa ancestralidade com uma estética oversized muito autêntica”. E a missão vai além da adaptação ao clima: “Mais do que adaptar peças ao clima, a nossa missão é dar voz e abrir caminhos para mostrar que o Ceará e o Nordeste têm uma narrativa urbana potente e complexa, que vai muito além dos clichês litorâneos e das praias. Temos história, repertório e capacidade de criar um streetwear autoral, com manualidade, responsabilidade e um olhar único que merece ocupar o mundo”.

Essa visão tem também uma dimensão política, que o estilista faz questão de sublinhar: “O streetwear sempre foi a linguagem de quem precisava ocupar espaços onde antes não era permitido entrar. Hoje, no contexto global, ele é uma ferramenta política direta de representatividade, pertencimento e reescrita de narrativas. Quando um estilista preto, nordestino e LGBT coloca a sua vivência em uma passarela através do streetwear autoral, ele está fazendo um ato político, mostrando que a rua não é só consumo, é cultura, é história e é alta criação”. Na prática, a marca busca aproximar a grandiosidade da passarela do dia a dia, um desejo anterior à própria formação do estilista: “O grande cerne da Bruno Olly Studio é realizar um desejo que eu já tinha antes mesmo de me formar: trazer a força, o conceito e a grandiosidade da passarela diretamente para o guarda-roupa do cliente, em peças desejáveis, marcantes e fáceis de vestir no dia a dia”.
A sustentabilidade também faz parte do processo. O ateliê trabalha sob demanda, o que já reduz o desperdício, e os retalhos de jeans e alfaiataria ganham nova vida nas mãos de artesãos parceiros: “Esses resíduos são separados por gramatura e textura e direcionados para artesãos parceiros que transformam o que seria descarte em novos elementos, seja em detalhes tecidos, acessórios ou intervenções de superfícies. É um ciclo onde o nosso ‘fim de processo’ vira matéria-prima para a renda e a arte de outra pessoa”. O desafio, agora, é crescer sem perder essa essência: “O principal desafio é escalar a produção mantendo a essência da exclusividade e o valor do feito à mão, diferenciando-nos do fast fashion através de um atendimento personalizado, matérias-primas nobres e cuidado artesanal em cada etapa do processo. Nosso propósito é preservar a autenticidade em um mercado de massificação”.
Se pudesse deixar uma mensagem costurada de forma invisível em cada peça, Bruno já sabe qual seria, e ela resume a trajetória da marca: “Não esqueça de onde você veio; é isso que te deixa forte para ir a qualquer lugar”.

